Apropriar-se
- Destina Psicanálise
- 13 de out. de 2025
- 2 min de leitura
Atualizado: 14 de out. de 2025
Essa semana me dei conta de que eu moro em um apartamento, do qual sou proprietária há quase quinze anos, e nunca fui a uma reunião de condomínio. A desculpa é óbvia: reunião de condomínio é mesmo muito chata. Deve ser, eu acho, porque a verdade é que nunca fui. E também posso usar a cartada sempre válida da falta de tempo. Mas pera aí. 15 anos e nunca, nunca ter conseguido ir? Tem algo que mesmo eu nada cega e sempre em análise não conseguia enxergar até me ouvir falando isso duas vezes seguidas em voz alta. "Nunca?", minha analista perguntou, "nunca" mais uma vez repeti.
Como pode ser difícil tomar posse de algo que já é nosso. Pode acontecer, inclusive, de ser difícil se sentir dono daquilo que está conosco desde sempre, desde que começamos a existir., desde que fomos formando quem somos.
Estou falando tanto de apropriar-se de algo material, como daquelas coisas mais difíceis de mensurar. Acontece com a capacidade de usufruir do dinheiro que conseguimos com o nosso trabalho, e também de nos valer daquilo que estudamos ou mesmo das experiências que vivemos.
O que ganhamos ao longo da vida, seja o que nos foi dado seja aquilo que apreendemos porque algo nos faltou, tem valor, faz de nós quem somos e é o nosso maior capital. Até porque só a gente o tem. Ninguém acumulou na vida a mesma coleção de vivências boas e ruins, de ensinamentos, de tristezas, de relações, de objetos e de bens. Ganhamos inclusive perdas, e se dar conta, fazer conta, contar (com) tudo isso é também poder apropriar-se, apropriar de si.
Ser eu própria, e (de) mais ninguém.
